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terça-feira, 6 de outubro de 2015
Silêncio, negação e não-música. (Por Phillipe Cunha)
É fatalmente impossível viver em silêncio. Há, de maneira automática, o elemento da percussão de nossos corações como o elemento fundamental para concluirmos nossa existência. John Cage, ao conceber 4’33’’, já alentara para esta reflexão ao ser atacado pelos conservadores críticos de música por uma obra que, ante a própria inércia dos compositores, se estabelece como música de interação dos nossos corações, respiros, movimentos e incômodos que sentimos ao sair do silêncio aleatório para o silêncio orquestrado. Definitivamente, só temos silêncios quando perecemos. Fim.
Ao receber o convite para escrever sobre viver numa cidade sem música, justamente busquei desconstruir esta premissa: se não conseguirmos viver em silêncio, se estamos a todo momento rodeado de sons, vivemos então em música automaticamente por estarmos numa cidade? Sim. Na música contemporânea temos o retorno do conceito de ruído como som e instrumento artístico, fazendo assim a confluência entre o que desenvolvemos no físico (arquitetura e cidade) dentro do espaço metafísico (música). A cidade é esta multiplicidade física da música: sempre ouvimos os atos e cenas de sua ópera assim como fazemos parte dela, seja na praça, dentro do carro, nas fábricas ou hospitais, estamos e somos a música de nossas cidades. Mas o que é viver sem se preocupar com música? Simplesmente é ignorar a própria existência. É ignorar, frente à prova cientificamente comprovada da relatividade entre o tempo e espaço por Einstein, que a natureza simplesmente é o que ela sempre foi: música. Música é, metafisicamente, um ato arquitetônico composto de outros fenômenos, no caso o som e o tempo. A arquitetura, seja ela do corpo ou do planeta é exatamente o mesmo, pois consideramos atos arquitetônicos fenômenos como luz e espaço. Greco-romanos já estabeleciam tais filosofias em seus cânones, principalmente por considerar que todas as expressões artísticas deveriam seguir, igualmente, os mesmos princípios, pois se manifestam no mesmo lugar ontológico ao qual sabemos. Viver é estar e ser algo constante, dotado de vontades físicas e metafísicas, seja você ateu, gnóstico ou agnóstico. A música e a arquitetura são a vontade de viver, continuar experimentando e continuar descontruindo.
John Cage, representação de Fontana Mix (1958)
Desde de John Cage muitas mudanças na música ocorreram. A música deixou de ter o status puramente apreciativo e influenciador a ser a experiência própria, efêmera e única. A emergência da chamada música eletroacústica latente e influente em compositores como Iannis Xenakis, Karlheinz Stockhausen, Pierre Boulez e Pierre Schaeffer já denotavam a subversão da estrutura clássica ao qual a música deveria acontecer, com métodos serialistas ou aleatórios. Se dentro de nós, biologicamente, nasce uma música tão moderna como 4’33’’, como podemos transcender algo tão inovador? Como podemos transcender a arte e o fenômeno que dela surge? Esta questão já foi respondida de diferentes épocas e formas, todas apreciando justamente seu não-estado, sua negação, a ausência.
Iannis Xenakis, representação de Mycenae Alpha (1978)
A partir do coração de John Cage, modificamos nossa visão de enxergar o mundo e nossas cidades. Das fábricas imundas é gélidas do proletariado existia amor e sexo tal como Genesis P-Orridge e seu coletivo COUM Transmissions performava na década de 70, ou que os alemães fervorosos do não-movimento Krautrock agrediam a cidade alegre e estupidamente feliz do rock 'n' roll dos anos 60. Graças a essas transformações podemos enxergar a música das cidades e da natureza com os olhos do cuidado e do afeto, do hedonismo e da transformação social. Agora, a percussão musical é outra, procuramos um outro silêncio, outras fontes da mesma verdade. Throbbing Gristle, Pere Ubu, Cabaret Voltaire e tantos outros observavam as mesmas cidades, seus próprios subúrbios industriais sucateados pelo liberalismo econômico. Aparentemente, estes subúrbios industriais eram repetições diferentes de um estúpido milagre capitalista. Se Burroughs, Deleuze e Guattari perceberam também a repetição e a (in)diferença de nosso mundo, a música trilhava neste caminho em busca de seu paradoxo: o novo silêncio.
Pere Ubu, capa do LP The Modern Dance (1978)
'' Palavras são como violência, elas quebram o silêncio [...] Promessas são ditas para serem quebradas. '' proclama Dave Gahan na eletrônica frenética de Enjoy the Silence do Depeche Mode, composta por Martin Gore ao fim da década de 80, auge do chamado pós-modernismo. Esta vontade de silêncio chega ao auge com ''Silence is Sexy'' de Einstürzende Neubauten ou o trance de Bedtime Story composta por Björk para Madonna. Precisamos morrer para lutar pelo nosso silêncio, precisamos desconstruir e viver num mundo onde palavras de ódio e rancor não machucam mais seus habitantes. O silêncio portanto é a harmonia máxima, mesmo que para isso teremos que mais uma vez lutar contra a morte. O que precisamos já está em nossas mãos.
Anton Corbijn, videoclipe para Enjoy the Silence de Depeche Mode (1990)
*Phillipe Cunha, arquiteto e urbanista. Pesquisador sobre as práticas contemporâneas cibernéticas no campo ampliado da arte e da arquitetura multimídia.
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eu escrevi sobre o álbum de silêncio da raquel stolf aqui: http://linda.nmelindo.com/2015/06/raquel-stolf-assonancias-de-silencios/ é de possível interesse.
ResponderExcluirmeu álbum éter 2 está entre os ítens da seminal records, e é totalmente silencioso.