
A vida no mundo planificado e impessoal se movimenta um pouco mais rápida que no passado. Os carros flutuam como pedras e flechas arremessadas como nos ritos tribais, velozes e certeiros. Prédios iguais e transparentes fingindo honestidade, máquinas e homens misturados como se fossem irmãos. Milhares de embriões dividindo a piscina e quando chega a hora do nascimento reduzida a apenas duas semanas, são expelidos da Cloaca, modificados geneticamente não choram (programados para evitar constrangimentos), a vida funcional persistindo.
O céu virtual simula um verão estática de temperatura amena, sonhos coletivo bem ordenados, sem som ou qualquer sujeira, nem mesmo em pensamentos... amarelo e cinza.
As trocas de membros e órgãos são comuns e realizadas no meio da rua, ninguém consegue passar três dias sem trocar um pulmão ou fígado, outros preferem exoesqueletos e há os mais afortunados que preferem a solidão dos prédios, normalmente alguém de meia idade que trabalhou o suficiente para ser Imortalizado. No termino do século XXI foi desenvolvida uma droga que seria a punição final revolucionando o sistema carcerário, substancia capaz de prender o ser por mil anos o prisioneiro no seu próprio mundo encefálico, cinzento e branco. Cada nanosegundo dias se acumulam no universo do eu estático, o condenado era forçado a abrir a boca, pressionando os maxilares – sorrisos, choros, alegrias e tristezas para ambos os lados, alguns mordiam arrancando dedos do carcereiro, mas acontecia poucas vezes e muito do que era dito não passavam de lendas. A droga foi aperfeiçoada e aderida nas classes mais abastardas, hoje praticamente toda humanidade consome uma versão de Imortalidade, mesmo que tal intenção (de se ficar vivo para sempre) esteja apenas na embalagem.
Em alta velocidade, as arvores florescentes e sintéticas iluminam o caminho reto e sem acidente, a noite é de 3 horas e o céu virtual retorna ao dia ensolarado e paralisado, a segunda natureza de ferro, silicone e silício é para enfeite, os pássaros fantasmas virtuais e cintilantes atravessam os corpos, a nova natureza apenas para os olhos. O velhote no carro flutuante, assiste ao neurojornal.
- O lagarto...
- DIVINDADE é a qualidade característica, unificadora e coordenadora da Deidade.*
- Z333 encontrado em outro planeta.
- Colônias terrestres moveis participe você também.
-As criaturas mortais em evolução possuem uma necessidade irresistível de simbolizar os seus conceitos finitos de Deus. *
-Todos se dirijam ao próximo nível, descarga de material a 2km.
- uma reserva em 5 horas.
O carro estava alcançando velocidade máxima.
Não há mais o paladar, usa um traje que regula todas as funções que restaram da antiga humanidade, algo que logo mais poderá ser resolvido, apenas o vazio do estomago é sentido, em poucos segundos alimentação intravenosa e logo o alivio - sensação de satisfação. A neuropropaganda continua a cantar e multicolorir o cérebro, o velho não dá muita importância até que:
- Daqui a 2hs teremos a primeira apresentação ao grande público do Projeto Morte Noise que realizará o show experimento para aqueles que possuem vontade de transcender a matéria, nossa atual sociedade atingiu o sonho máximo, não precisamos mais sentir medo, superamos a natureza, mas ainda sentimos a necessidade de possuirmos algumas sensações e uma delas é a experiência da morte, vivencia-la e voltar para compartilharmos...
O velho sabia o que seria relatado em sua cabeça, mecanicamente se dirigiu ao local esperado, em alguns minutos percebeu que uma manada de seres semiartificiais estavam se movendo para o mesmo lugar, luzes e mais luzes, pequenos sons tecnológicos e prédios cinzentos e padronizados como milhões de irmãos siameses unidos por centenas de cordões umbilicais (elevadores de transportes diversos).
O prédio se destacava dos demais, possuía uma porta modelo antigo, para abri-la tinha que colocar o olho na esfera que saia do lugar onde estaria uma campainha nos tempos áureos, andando sentiu o cheiro de perfume mas não se importou, a frente animaisretrôs em seus fingimentos binários animavam-no com seus pulinhos, cantos e pequenas violências predadoras, essas criaturas o alegra muito pela despretensão, são horrivelmente mecânicos sem nenhuma carne sintética, mas podem ser tocados, pisa num cachorrinho metálico e observa todo mecanismo e fluídos se espalharem no chão liso e reto.
No centro de tudo, uma árvore majestosa e frutos pesadíssimos que em tempos e tempos caiam abalando o chão, eram mais ou menos cópias da campainha. Estava tão tranquilo que não notou que o lugar já estava lotado, alguns olhavam espantados e com nojo por não acreditar que alguém tão velho esteja ali, pronto para transcender, ter experiências além matéria, talvez acreditassem que ele roubaria o lugar que é só deles.
A música pressiona seus corpos como paredes de aço espremendo a todos formando um ser múltiplo de ruídos maquinais e retorno aos sentimentos primitivos que cada célula aprendeu durante milhares de eras, apenas o velho não se sente confortável, sabia que todos o ignoram porque tinha abandonado a dois dias o upgrade, não queria renovar seu cérebro bastava o corpo, ama o mecanismo de sua falange rangendo, fica horas abrindo e fechando as mãos enquanto os outros se preocupam em pagar alto preço para continuarem agindo da mesma forma e repetindo o mesmo padrão cerebral, pensou numa dose de Imortalidade.
O cheiro de metal e carne sintética começou a impregnar a casa, pessoas imploravam para serem desintegradas, um novo balé se formava. Disparos aleatórios, gritos de dor e muitos sorrisos.
Um grupo desesperado a gritar.
- Queima, queima, queima!
A arma minúscula igual a o dedo indicador apontando e disparando, não havia cor, apenas derretimentos, gritos de euforia e louvores estranhos.
- DEUS é uma palavra-símbolo, que designa todas as personalizações da Deidade. O termo requer uma definição diferente para cada nível pessoal de função da Deidade e deve, ainda, futuramente, ser redefinido dentro de cada um desses níveis, pois esse termo pode ser usado para designar as personalizações diversas, coordenadas e subordinadas, da Deidade, como por exemplo: os Filhos Criadores do Paraíso: os pais dos universos locais.
O dedo aponta e vaporiza, pequenas brumas vermelhas flutuantes e leves. O show chegou ao clímax, começou a segunda parte da liturgia.
1. * Deus, o Pai : o Criador, o Controlador e Sustentador. O Pai Universal, a Primeira Pessoa da Deidade.
2. Deus, o Filho : o Criador Coordenado, o Controlador do Espírito e Administrador Espiritual. O Filho
Eterno, a Segunda Pessoa da Deidade.
3. Deus, o Espírito : o Agente Conjunto, o Integrador Universal e Outorgador da Mente. O Espírito Infinito, a Terceira Pessoa da Deidade.
Uma voz estridente e dissonante anunciava:
- Todos somos três, todos somos o infinito, somos o pai e o filho, somos o espirito. Uno sem início e fim, sem movimento, somos nosso próprio motor infinito.
Duas imensas esculturas cibernéticas surgiram onde estava a grande arvore, corpo humano com a cabeça de boi e a outra de leão, nos seus ventres havia uma cavidade onde se acendiam as fornalhas, as duas esculturas estão coladas como moeda antiga, uma em oposição a outra, todas as duas seguravam uma espécie de crianças, muitos sentiam um certo medo, o desconhecido ainda afeta o resto de humanidade dos seres semimaquinais.
- Estamos prontos para experimentar o eu que é uno e múltiplo, o eu-nós, mortos, ressuscitados, unidos e separados, nós-eu, pleno sem princípio ou fim, apenas existindo.
O velho foi acertado pelo raio, e só havia luz e mais luz, calor... Sentiu a perda de sua individualidade, quer continuar, sabe quem é, possui desejos.
- Vocês já estão prontos, somos o Nós e o Eu Supremo, vivemos do lodo borbulhante... sempre vivemos e voltamos e todos nessa nova era podemos misturarmos.
- Vocês já estão prontos, somos o Nós e o Eu Supremo, vivemos do lodo borbulhante... sempre vivemos e voltamos e todos nessa nova era podemos misturarmos.
A grande sala estava colorida de componentes biomecânicos, sangue sintético e vapores de corpos recém derretidos, não demorou muito o processo estava sendo revertido. Partes de diferentes corpos se fundindo braços, pernas, troncos, olhos, bocas, misturando-se formando indivíduos diferentes entre si, dividindo, multiplicando e repartindo lembranças, espirais de pensamentos misturados em seres de três, quatro, cinco ou mais cabeças, pernas e braços por todas as partes dos corpos, a catarse uma voz que são centenas, o universo condensado em quatro paredes, dança e o ardor dos corpos fundidos, todos os pensamentos compartilhados se tornando um só, os mais fracos sucumbem, não conseguem manter a individualidade, só os que possuem ego como força da vida sobrevive, sons mentais de dores e prazeres. As esculturas movimentam-se para baixo desaparecendo, aos poucos os sobreviventes são integrados novamente ao habitat, retornando a dimensão simplória e cotidiana, sentem-se cansados e beatificados, todos sentiam uma estranha paz de espirito, do caos ao nada do nada ao caos sentiam que precisavam desses seres estáticos, precisavam dessas sensações, retornariam quantas vezes fosse possível para sentirem-se apenas vivos
O Velho moveu a mão e não sentia mais prazer, entrou no carro, começou a ver tudo em sua volta diminuir até ver o mundo geométrico e ordenado que vive, como gostaria de experimentar o caos outra.
Jean Souza (Escritor e músico)